
É-me difícil e penoso relembrar todos os acontecimentos. Posso assegurar que estava deitado na minha cama, absorvido pelos sofrimentos do jovem Werther, quando reparei na ponta branca que despontava do meu saco de viagem verde, colocado no armário semi-aberto. Absorto e estupefacto, mantive-me imobilizado durante largos minutos, com os braços hirtos segurando o livro aberto na mesma página. Verificava que a ponta subia e exibia mais superfície branca, numa cadência semelhante à subida do sol nascente no horizonte. Era agora notório que a sua superfície era facetada, como um cristal prismático, com ângulos constantes entre as faces. Quando esse obelisco cristalino, de um branco gélido, já excedia a altura de um homem, sentei-me na cama, depositando lentamente o livro no regaço, sem deixar de avistar com aguda obsessão o gelo que conquistava o armário. Não guardo na memória como me levantei e me acerquei da porta entreaberta do armário, mas aflora-me a ideia de um frio imobilizador, um aroma a pinheiro e bacalhau. O certo é que o gelo se propagou com rapidez pelas paredes. Através da janela, ainda virgem de água sólida, sumia-se cada vez mais distante, uma Espanha surreal. Depois, nada. Azul, branco, cinzento, homogeneidade, linhas paralelas. Espelhos. Milhares de espelhos reflectindo milhares de nadas cristalinos. Feito de gelo, assolado por cavidades de pontes de hidrogénio, vi-me transformado no Iceberg da Fraternidade.
Vim aqui parar através do blog "Jeux Interdits" e fiquei retida neste post, que achei muito belo ... "Milhares de espelhos reflectindo milhares de nadas cristalinos."
ResponderEliminarAgradeço a sua visita e o seu simpático comentário. Volte sempre, apesar de eu ter pouca disponibilidade para o actualizar.
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