
De início, não dava pela sua presença. Hoje, tudo é diferente. Uma circunstância inédita, uma desviação milimétrica na roda dentada da sua rotina atiçara o factor X no sentido de uma nova consciência. Nesse dia, deu por ela, fria, destacada da pele humana. O choque estava na noção da sua omnipresença desde há muito tempo. A saber, todas as infâmias e vergonhas comprometedoras de um passado oculto nos recessos da memória não só tinham sido por ela presenciadas, mas também imitadas com enjoativa exactidão, uma perfeita momice infantil. Nesse dia, percebeu que existia a dobrar, que arrastava uma negra dobra de luz sobre si mesmo. Não soube o que fazer, era solitário, não lidava bem com proximidades. Certa vez, chegara mesmo a rosnar quando um transeunte se sentou no lugar contíguo ao seu na estafa do autocarro. Deixou de se deitar com as namoradas de ocasião; sempre via outro casal igual, repetindo os mesmo gestos obscenos, negros, irritantes na precisão com que duplicavam a sua acção. Ganhou a obsessão de conseguir falar antes dela, de provocar um movimento de lábios que fosse, de facto, um movimento único, não dois, sempre dois. O dois era negro e gozava com ele.
Como no início, hoje é tudo diferente. Tornara-se uma sombra do que era.
E ainda me custa mais aceitar o escrito "fim" depois de ler este belo texto!
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