domingo, 23 de dezembro de 2007

O'Neill


TROPEÇO DE TERNURA POR TI




"É simples a separação.


Adeus.


Desenlaçado o último abraço, uma pressa de dar cos-


tas um ao outro


Já não há gestos. O derradeiro (impossível) seria não


desfazer o abraço.


Pressa de cada um retomar o outro na teia lenta da


rememberança.


Não desfazer o abraço. Ficar face encostada ao niagara


de cabelos.


Sobram fotografias, voz no gravador, um bilhete na


caixa do correio. Sobra o telefone.


Tensão-telefone. Experimentada. Sofrida.


Tensão-telefone. Possibilidade de voz não póstuma.


No gravador, voz de ontem, de anteontem. De há anos.


Sobra o telefone. Mudo.


Retininte?


Sobrarão as cartas. Sobra a espera.


Na teia lenta da rememberança, retomo-te em memória


recente: na praia de ternura onde nos enrolámos e desen-


rolámos desesperados de separação.


Sobra a separação."




Alexandre O'Neill






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