domingo, 6 de janeiro de 2008

domingo, 23 de dezembro de 2007

Natal, Idade

O nosso correspondente em Lavacolhos (Silvares da Beira):
'É com a boca cheia de bolo-rei que vos escrevo. É Natal. Acaba de chegar. Este ano diz que a avó não vai dormir e babar o sofá nos dez minutos que se seguirão ao jantar de consoada. A prima não vai oferecer o traste do costume. As mensagens de telemóvel serão copiosamente abafadas sob a cascata autoclística da retrete. O petiz vai ficar feliz. A televisão vai dar algo de jeito. O Cavaco vai comer com maneiras e fará o discurso mascarado de rena. Torrentes de amigos e conhecidos (estes últimos mais abundantes, segundo fonte do INE), soterrados sob camadas geológicas de esquecimento, terão o gesto simpático de nos incluir nas suas quilométricas listas de destinatários da sua inteligente-expressiva missiva natalícia. Eu vou comer polvo, ele comerá bacalhau, mas há quem coma perú. Também é chique a alheira de marmota, o caviar de chaputa e a inolvidável chanfana das Aleutas. Trocar-se-ão presentes, amor e insultos. No quentinho do domicílio.
O Natal é cada vez menos meiguinho. Fui violado pelo Natal.
Segue a emissão com a informação horária. Não perca dentro de momentos o espaço "Conselhos & Dicas", hoje com o tema "Colocação do perservativo para manetas."
Da minha parte é tudo. - Tito Lívido, O Desgraçador em Lavacolhos'

O'Neill


TROPEÇO DE TERNURA POR TI




"É simples a separação.


Adeus.


Desenlaçado o último abraço, uma pressa de dar cos-


tas um ao outro


Já não há gestos. O derradeiro (impossível) seria não


desfazer o abraço.


Pressa de cada um retomar o outro na teia lenta da


rememberança.


Não desfazer o abraço. Ficar face encostada ao niagara


de cabelos.


Sobram fotografias, voz no gravador, um bilhete na


caixa do correio. Sobra o telefone.


Tensão-telefone. Experimentada. Sofrida.


Tensão-telefone. Possibilidade de voz não póstuma.


No gravador, voz de ontem, de anteontem. De há anos.


Sobra o telefone. Mudo.


Retininte?


Sobrarão as cartas. Sobra a espera.


Na teia lenta da rememberança, retomo-te em memória


recente: na praia de ternura onde nos enrolámos e desen-


rolámos desesperados de separação.


Sobra a separação."




Alexandre O'Neill






quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Satisfacçoes

O primeiro olhar através da janela ao acordar

o velho livro reencontrado

rostos entusiasmados

neve, a mudança das estaçoes

o jornal

o cao

a dialéctica

tomar um duche, nadar

música antiga

sapatos cómodos

compreender

música nova

escrever, plantar

viajar

cantar

ser amável
Bertolt Brecht

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Aquilino para intelectuais.

Nunca como hoje me causou tanta repulsa a propensao para o cinismo enciclopédico que têm os jornalistas e ilustres emissores de opiniao em Portugal. A propósito da transladaçao dos restos mortais de Aquilino Ribeiro para o Panteao Nacional muita nota, artigo e notícia foi publicada. Em todas se referiam obras emblemáticas do escritor, mas nenhuma se referia ao clássico Romance da Raposa. E eu pergunto porquê? Talvez, tocados por um secular provincianismo, esses senhores se sentissem incomodados ao citar uma obra cujo alvo principal sao as crianças. Citar um conto infantil juntamente com obras de solene título como "O Jardim das Tormentas", ou "As Três Mulheres de Sansao", poderia beliscar a imagem que tanto esforço lhes custa cultivar de intelectuais aborrecidos num país atrasado. Fosse o autor um estrangeiro, talvez um Hans Christian, já a cantiga mudava o tom. Na minha memória, Aquilino permanecerá o narrador de uma certa realidade rural, o Aquilino dos regionalismos (às vezes crípticos), o Aquilino d`"O Malhadinhas", o Aquilino da Salta-Pocinhas.
Nota Para Pulido Ler:
Nao discuto a subjectividade dos gostos. No entanto, o dia em que Vasco Pulido Valente escrever algo de positivo relativamente a uma pessoa ou a um assunto que sejam considerados motivo de júbilo pelos demais habitantes do planeta , será efusivamente comemorado com milhares de litros de Raposeira e constituirá efeméride a assinalar em ediçoes futuras d'A Minha Agenda.
Larga a pata.

Afinal, apeteceu-me dizer algo mais...


Pronto. Está bem. Nao sou um tipo coerente, nem tenho problemas em contradizer as mais férreas e dramáticas decisoes pessoais. Cócó para elas.

Hoje apeteceu-me beber um pouco de sidra, na companhia de Arlette, antiga companheira de chinquilho, nessas já longíquas tardes estivais passadas na Costa da Caparica. Receio que tenha bebido demais.


quinta-feira, 17 de maio de 2007

Fim

Hoje não escrevi até me fartar. Fartei-me de escrever.

Obrigado e até sempre.