segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

domingo, 6 de janeiro de 2008

O último cigarro?

Há algum tempo, deixei de fumar. Depois de uma festa num hotel, nas ilhas Canárias

O último cigarro?

Há algum tempo, deixei de fumar. Depois de uma festa num hotel, numa ilha das Canárias. Receio ter tomado essa decisão de ânimo demasiado leve, apesar das notórias melhorias no paladar, no respirar e no hálito ao acordar. Os momentos mais interessantes da minha vivência foram fumados. Se esta afirmação não é totalmente verdade, posso afirmar que pelo menos foram celebrados com fumo. Os instantes mais saborosos tiveram o seu cigarro. Nem sempre da mesma marca, nem sempre do mesmo género. Comprado, cravado, enrolado ou já pronto no pacote, o cigarro viveu nos meus tempos mortos. Também os queirosianos contemplativos existiram. Situações corriqueiras houve que se tornaram prazenteiras pelo simples facto de proporcionarem tranquila cigarrada. A saber: esperar comboios, caminhar para a faculdade, sentar-me no jardim, ir a casa de certos amigos. Depois de foder, mas isso só quando a amiga também fumava. No entanto, a estrela da minha vida de fumador foram as estações de comboios. Recordo a delícia que era para mim puxar quentes baforadas de pé na plataforma. Ou a placidez de espírito com que enrolei cigarros no meio da azáfama ferroviária. E o mar. Fumar num barco, com maresia e Peniche ao fundo.
Todos os fumadores têm as suas manias. Eu tinha as minhas. Ao contrário do costume, nunca gostei de misturar café e cigarros, assim como não me era imprescindível bafar depois das refeições. Detestava fumar de manhã, coisa que raramente fiz. Tinha a mania do "cigarro-solitário", que se fuma sozinho à janela antes de deitar, do "cigarro-social" que acompanhava a noitada e, já para o fim, o cigarro enrolado.
Deixei orfãos dezenas de isqueiros. Fumei de muitas marcas, nacionais e estrangeiras. O primeiro cancerílho foi um Camel, cravado a um amigo num final de noite que desembocou nas margens do Tâmega. Confesso que gostei. Seguiram-se as experiências tabagistas, que servem o propósito de descobrir o El Dorado do fumador: o cigarro bom e barato. Nunca encontrei resposta definitiva ao problema, pelo que as experiências se prolongaram durante toda a minha vida útil de fumo de forma pouco sistemática. Ficam para a minha história pessoal os secos, torrados e iniciáticos Camel, os curtos, arranhadeiros Ventil, os Lucky Strike habituais, o aromático Amsterdamer e o Golden Virginia (50g) que adoptei já no exílio asturiano.
Agora, acabou-se.
Seguindo o mito do Eterno Retorno, um dia voltarei, agarrado a um cachimbo.
Até lá....

Las portuguesas


Las portuguesas

Son bellezas que no dicen

Nada.


Paz Alba

domingo, 23 de dezembro de 2007

Natal, Idade

O nosso correspondente em Lavacolhos (Silvares da Beira):
'É com a boca cheia de bolo-rei que vos escrevo. É Natal. Acaba de chegar. Este ano diz que a avó não vai dormir e babar o sofá nos dez minutos que se seguirão ao jantar de consoada. A prima não vai oferecer o traste do costume. As mensagens de telemóvel serão copiosamente abafadas sob a cascata autoclística da retrete. O petiz vai ficar feliz. A televisão vai dar algo de jeito. O Cavaco vai comer com maneiras e fará o discurso mascarado de rena. Torrentes de amigos e conhecidos (estes últimos mais abundantes, segundo fonte do INE), soterrados sob camadas geológicas de esquecimento, terão o gesto simpático de nos incluir nas suas quilométricas listas de destinatários da sua inteligente-expressiva missiva natalícia. Eu vou comer polvo, ele comerá bacalhau, mas há quem coma perú. Também é chique a alheira de marmota, o caviar de chaputa e a inolvidável chanfana das Aleutas. Trocar-se-ão presentes, amor e insultos. No quentinho do domicílio.
O Natal é cada vez menos meiguinho. Fui violado pelo Natal.
Segue a emissão com a informação horária. Não perca dentro de momentos o espaço "Conselhos & Dicas", hoje com o tema "Colocação do perservativo para manetas."
Da minha parte é tudo. - Tito Lívido, O Desgraçador em Lavacolhos'

O'Neill


TROPEÇO DE TERNURA POR TI




"É simples a separação.


Adeus.


Desenlaçado o último abraço, uma pressa de dar cos-


tas um ao outro


Já não há gestos. O derradeiro (impossível) seria não


desfazer o abraço.


Pressa de cada um retomar o outro na teia lenta da


rememberança.


Não desfazer o abraço. Ficar face encostada ao niagara


de cabelos.


Sobram fotografias, voz no gravador, um bilhete na


caixa do correio. Sobra o telefone.


Tensão-telefone. Experimentada. Sofrida.


Tensão-telefone. Possibilidade de voz não póstuma.


No gravador, voz de ontem, de anteontem. De há anos.


Sobra o telefone. Mudo.


Retininte?


Sobrarão as cartas. Sobra a espera.


Na teia lenta da rememberança, retomo-te em memória


recente: na praia de ternura onde nos enrolámos e desen-


rolámos desesperados de separação.


Sobra a separação."




Alexandre O'Neill






quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Satisfacçoes

O primeiro olhar através da janela ao acordar

o velho livro reencontrado

rostos entusiasmados

neve, a mudança das estaçoes

o jornal

o cao

a dialéctica

tomar um duche, nadar

música antiga

sapatos cómodos

compreender

música nova

escrever, plantar

viajar

cantar

ser amável
Bertolt Brecht