Há algum tempo, deixei de fumar. Depois de uma festa num hotel, numa ilha das Canárias. Receio ter tomado essa decisão de ânimo demasiado leve, apesar das notórias melhorias no paladar, no respirar e no hálito ao acordar. Os momentos mais interessantes da minha vivência foram fumados. Se esta afirmação não é totalmente verdade, posso afirmar que pelo menos foram celebrados com fumo. Os instantes mais saborosos tiveram o seu cigarro. Nem sempre da mesma marca, nem sempre do mesmo género. Comprado, cravado, enrolado ou já pronto no pacote, o cigarro viveu nos meus tempos mortos. Também os queirosianos contemplativos existiram. Situações corriqueiras houve que se tornaram prazenteiras pelo simples facto de proporcionarem tranquila cigarrada. A saber: esperar comboios, caminhar para a faculdade, sentar-me no jardim, ir a casa de certos amigos. Depois de foder, mas isso só quando a amiga também fumava. No entanto, a estrela da minha vida de fumador foram as estações de comboios. Recordo a delícia que era para mim puxar quentes baforadas de pé na plataforma. Ou a placidez de espírito com que enrolei cigarros no meio da azáfama ferroviária. E o mar. Fumar num barco, com maresia e Peniche ao fundo.
Todos os fumadores têm as suas manias. Eu tinha as minhas. Ao contrário do costume, nunca gostei de misturar café e cigarros, assim como não me era imprescindível bafar depois das refeições. Detestava fumar de manhã, coisa que raramente fiz. Tinha a mania do "cigarro-solitário", que se fuma sozinho à janela antes de deitar, do "cigarro-social" que acompanhava a noitada e, já para o fim, o cigarro enrolado.
Deixei orfãos dezenas de isqueiros. Fumei de muitas marcas, nacionais e estrangeiras. O primeiro cancerílho foi um Camel, cravado a um amigo num final de noite que desembocou nas margens do Tâmega. Confesso que gostei. Seguiram-se as experiências tabagistas, que servem o propósito de descobrir o El Dorado do fumador: o cigarro bom e barato. Nunca encontrei resposta definitiva ao problema, pelo que as experiências se prolongaram durante toda a minha vida útil de fumo de forma pouco sistemática. Ficam para a minha história pessoal os secos, torrados e iniciáticos Camel, os curtos, arranhadeiros Ventil, os Lucky Strike habituais, o aromático Amsterdamer e o Golden Virginia (50g) que adoptei já no exílio asturiano.
Agora, acabou-se.
Seguindo o mito do Eterno Retorno, um dia voltarei, agarrado a um cachimbo.
Até lá....