segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Preferir mulheres

Aviso já que isto não é propaganda em favor do aumento das liberdades para lésbicas. Aviso feito.

Quando era um imberbe petiz, a minha mãe sempre se preocupou em perguntar com quem tinha andado a brincar naquela tarde, uma vez aparecido na cozinha para jantar, ofegante e mal lavado das minhas tropelias vespertinas. Saber-lhes os nomes servia algum critério de avaliação de conduta obscuro, faculdade esotérica apenas ao alcance das mamãs deste mundo. Ciente do resultado pouco pedagógico em aconselhar "boas companhias", apenas insistiu no inquérito, essa pergunta velada de censura ou aprovação, "quem é...?". Isto até hoje, não parecendo desanimar-se com os meus barbudos 25 anos.

A verdade é que quem escolhe sou eu, mamã. E, depois de anos de inconsciente e venturosa experimentação, venho aqui revelar o que mais me convém como companhia ideal. Antes de fazer a revelação de tão titânico empreendimento científico (custou-me uma puberdade e dois vícios), a lei obriga-me a exibir a correspondente ficha técnica:

- A companhia ideal é definida em função da situação mais propícia ao ócio e à preguiça contemplativa. Companhia ideal para se deixar estar numa maré de conversas fúteis e entregue a práticas sensoriais degustativas. Cum catano!, é a companhia ideal para se ir para o café!

- As observações foram feitas na sua esmagadora maioria em território nacional e as restantes em vários países europeus, ao longo de um período de tempo porreiro para se poder tirar ilações estatísticas deste género, ou seja, uma adolescência e sete anos no Tibete dos adultos;

- Não foram torturados animais durante a realização deste estudo.



Gosto da companhia de pessoas. Queria escrever isto. Prefiro as pessoas aos animais que não falam, não escrevem, não pintam, etc. e que cagam tudo por onde passam. E não tomam café.

De entre as pessoas, os homens são uns animais, no que à companhiologia da questão diz respeito. Falam alto, são demasiado básicos e coçam o tomatal sem pinga de pudor. A companhia ideal (estamos a considerar uma situação limite do prazer) para um café nunca poderia ser um homem. E depois, andam à porrada e eu sou um maricas.

É óbvio que a companhia ideal não poderia ser uma mulher. Uma mulher sozinha com um homem à mesa de um café é como Waterloo antes de soar o primeiro canhão. Confesso que é sempre confrangedor e são dois pesos sobre os nossos ombros: o de milhões de anos de astúcia biológica cruel e, pior de todos, a possibilidade de decotes generosos (peso a dobrar).

A companhia ideal é, sem margem para dúvidas, um grupo de mulheres. Não muito grande, senão ninguém se entende neste tasco. O suficiente para fazer uma roda simpática à volta da singela mesinha.
Se somos o único homem, rapazola, gaiato, no meio de mulheres, é imediatamente criada uma cumplicidade entre as convivas que visa reduzir-nos à ingenuidade. Essa conjura feminina traduz-se em frases crípticas (julgam elas!) que terminam em gargalhada geral, sinais, toques, etc. , que devemos receber com expressão desorientada, real ou fingida. No entanto, da mesma forma elegante, sem gases, arranhadelas nas gónadas, concursos de imperiais e vivas ao Benfica, instala-se um ambiente propício a qualquer tema de conversa, sobretudo aos mais fúteis, que tanto me divertem e soltam o riso. Ninguém sabe cultivar melhor o artificial que as mulheres. E o artificial é o que de mais humano pode haver. É exclusivamente nosso, nasceu do nosso acto de existir enquanto peculiaridade orgânica e está vedado à Mãe Natureza. Não é, portanto, abusivo dizer que as mulheres, colectivamente, são as principais portadoras da tão gasta "condição humana". Está-se bem entre elas.
Claro que isto é uma pretensão de aprofundamento disparatado da questão "com quem tomaria eu café pela última vez na vida?", mas para isso é que existem blogues. E cafés.




sexta-feira, 22 de dezembro de 2006

No banco de trás


É mais ou menos consensual que o rock n' roll não passa de um ciclo no qual se regurgitam (ou reciclam) tendências. É do senso comum que a globalização trouxe uma maior agressividade comercial das editoras deste género musical, vomitando discos a uma velocidade estonteante, resultando num decréscimo impressionante da qualidade dos discos e no desaparecimento de tudo o que realmente represente criação inédita, já que a novidade implica quase sempre um elevado risco económico. Assim, vamos andando de re-moda em re-moda. Agora estamos no ressurgir do pós-punk e eu bocejo com bandas que são pastiches dos The Jam, Gang of Four (que andam por aí outra vez), Clash, Stranglers, etc...



Tirando os Arcade Fire. Como diria o Adolfo, esses são uma lufada de brisa imaculada nesta latrina mal arejada. Agradeço a Deus pelo Funeral, único disco que ficará para a posteridade do Pop Rock, desde o Nevermind até agora. Para mim, escrever sobre música é tarefa difícil. Assim, não me vou por aqui a dissertar sobre essa obra-prima dos Arcade Fire, já que muita tinta tem corrido sobre eles. Deixo apenas uma curiosa nota : antes de sair o Funeral, saiu numa revista d' O Público uma crítica impressionante ao disco. Nota conferida 7/10. Aqui está a prova de se presenciar o momento histórico de uma inovação artística. O texto esquadrinhava o albúm com a paixão de alguém que se encontra estarrecido, música a música. No entanto, algo nele afrontava os galões do crítico, decerto habituado a ter as coisas bastante simplificadas nestes temas. Desta vez era diferente; não conseguia aplicar as chavões habituais, havia uma insubmissão estilística que escapava ao crivo da crítica. Desta vez, os putos, pedantes, criavam de forma independente, virando para meio mundo o cu ao léu.



Meses depois a crítica oscilava entre 9/10 e 10/10.




quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

Epílogo de uma viagem


Não devia fazer isto, mas meu irmão André Pinto (célebre por ser a minha imagem moldada em sentatez e contenção de espírito), deixou de forma incauta o seu velho diário de viagem abandonado em cima da mesa da sala de jantar. Li-o com avidez rapace. O que mais de surpreendente contém, é o último parágrafo no qual se lê uma comoção genuína, típica das grandes despedidas, nascidas de corações melosos, mas nada própria do meu gélido irmão. Ei-lo.
"Há ainda a incerteza de voltar a fazer semelhante viagem de comboio por outras paragens. Incerteza justa e quase fundada, não fosse a necessidade de ver e conhecer que me assalta sempre que recebo notícias de países distantes, onde outros fados se cantam. Vencendo essa fraca inércia do espírito, a viagem ainda será longa. Páro aqui por algum tempo para viver e descansar."

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Viajar de comboio



"Otro Viaje

Ya en los campos de Jaén,
amanece. Corre el tren
por sus brillantes rieles,
devorando matorrales,
alcaceles,
terraplenes, pedregales,
olivares, caseríos,
praderas y cardizales,
montes y valles sombríos.
Tras la turba ventanilla,
pasa la devanera
del campo de primavera.
La luz en el techo brilla
de mi vagón de tercera.
Entre nubarrones blancos,
oro y grana,
la niebla de la mañana
huyendo por los barrancos.
¡Este insomne sueño mio!
¡Este frío
de un amanecer en vela!...
Resonante,
jadeante,
marcha el tren. El campo vuela.
Enfrente de mí, un señor
sobre su manta dormido;
un fraile y un cazador
-el perro a sus pies tendido-.
Yo contemplo mi equipaje,
mi viejo saco de cuero;
y recuerdo otro viaje
hacia las tierras del Duero.
Otro viaje de ayer
por la tierra castellana
-¡ pinos del amanecer
entre Almazán y Quintana!-
¡Y alegría
de un viajar en compañia!
¡Y la unión
que ha roto la muerte un día!
¡Mano fría
que aprietas mi corazón!
Tren, camina, silba, humea,
acarrea
tu ejército de vagones,
ajetrea
maletas y corazones.
Soledad,
sequedad.
Tan pobre me estoy quedando
que ya ni siquiera estoy
conmigo, ni sé si voy
conmigo a solas viajando."


Antonio Machado, Campos de Castilla

domingo, 26 de novembro de 2006

Strøget


Depois de uma hora de caminhada ao longo da rua Strøget, senti os nervos tremerem de mansinho como larvas impacientes para sair do casulo. Voltar para trás estava fora de questao! Chegar ao fim da rua tornara-se o eixo da minha casmurrice, uma absurda aposta que fazia com a minha própria vontade. As pessoas que comigo se cruzavam mostravam a mesma decisao fanática chispando nos olhos; sobretudo as que passavam em sentido contrário. Por toda a parte se viam pequenas nuvens de exalaçoes ofegantes, como se cada homem, cada mulher e criança fossem impetuosas locomotivas orgânicas.
Ficava mais e mais cansado, as botas pesando como chumbo. Foi por esta altura que comecei a reparar nas pessoas que caiam inanimadas, vencidas pelo esforço desumano da caminhada, maxilares descaídos como cavalos de corrida em fim de prova. Nada disso penetrava a minha insane inércia de chegar ao fim e transpor o limiar da Strøget.
Pressa,
Espasmo,
Animal,
Espuma. O Sol é azeite na ressaca das ondas de espraio, tranquilas, que lambem o talude da praia no entardecer de fim de Verao. Espreguiço-me e vou para casa fazer um refogado.

sábado, 11 de novembro de 2006

Closing time

Tempo de fechar. Os empregados do bar lançam-me olhares impacientes cada vez que passam junto da minha mesa, absortos na azáfama do encerramento do estaminé. Decido abusar da sua benevolência. Sempre fui assim.
Num movimento, que pode ter demorado o tempo que leva a destruir um império, viro a cabeça e encaro a vasta janela de vidro que me separa da estranha realidade nocturna de uma cidade semi-adormecida. A água da chuva escorrendo na superfície lisa do vidro deforma a parca luz vinda de fora e, como se brincando às divindades, cria um novo mundo de formas ondulantes. Tal como o fumo que sai do meu cigarro, acabo de ver passar um casal de apaixonados transformado num excêntrico par de serpentes vestidas para um Inverno húmido. Os poucos carros que rodam pela avenida deixam atrás de si um cortejo de faixas encarnadas, laranjas e amarelas. Nao deixam de ser tristes na sua solidao festiva, como uma criança tentando festejar o seu aniversário sem convivas.
Mas que raio estou para aqui a dizer? É só uma noite fria, e um idiota divagando num bar é um empecilho para gente trabalhadora (sim...calma, já vou sair) que quer limpar a mesa e seguir para casa, onde uma cama mortificante aguarda o corpo aborrecido de cada dia.
Talvez só mais uma... para o caminho... ? Nao? Merda.... e que frio faz lá fora!

terça-feira, 7 de novembro de 2006

Um ano, um blog


"Boas entradas!

Não sendo um ávido leitor de belogues, decidi criar um, numa noite em que toureio a insónia. Este é um pequeno espaço onde se pretende expôr pequenos textos que sigam a disposição espiritual do autor. Os filmes, os livros, fragmentos de cada dia, relatos de opíparas refeições, recomendações da vida conjugal, segredos da bricolage e outras pequenas delícias de cada dia, constarão neste ciber-local. Quem não gostar, que o diga, ou melhor, escreva. Quem se sentir irritado, que insulte, pragueje. Força. Até porque não creio que alguma vez este canto seja lido por alguém que não seja familiar ou amigo. Um grande bem haja para todos os belogueres!!!!!"


Há um ano, seguindo um impulso para o qual nao (teclado espanhol...) encontro explicaçao, decidi criar um blog que deu vazao a alguma vontade literária que a espaços me assalta. Olhando para trás no tempo e contemplando os textos aqui publicados, chego à conclusao que o vazio inicial que presidiu à fundaçao do blog se foi transmutando numa tentativa de criaçao artística, num projecto compilativo de textos. A essência desse projecto foi assumindo contornos cada vez mais pessoais, persistindo sobre a ausência de comentários e de publicidade noutros espaços semelhantes. Pela minha parte, nao farei qualquer alteraçao ao estilo e conteúdo d'O Desgraçador, tendo em vista a recolha de comentários bajuladores em grandes quantidades.

O futuro deste espaço é certo e está traçado na sua origem: o fim. Nao obstante os determinismos que nos impoem as realidades finitas das nossas existências, posso garantir que continuarei a escrever aqui quando e enquanto me aprouver. Este permanecerá o espaço da minha tirania intelectual, o reino onde a minha palavra é soberana. O auge desta saborosa ditadura pessoal será o momento em que darei por finda a vida deste blog, afirmaçao completa de uma alegre independência mental. Prometo, até que chegue a altura de fechar as portas, continuar a escrever com irregularidade e despudor.

Um abraço, Luís