segunda-feira, 7 de novembro de 2005

Misérias de um fim de noite feliz

A coisa estava simpática. Num patamar amplo, aberto sobre o Tejo, os três resistentes de uma longa incursão nocturna pelo Bairro Alto disfrutavam da linda paisagem. As luzes dos carros que passavam na 24 de Julho pareciam deixar faixas multicolores atrás de si, no alcatrão. Mas isso era dos copos.
A conversa prosseguia em convulsões. Dois tipos e uma alemã, bastante mais sóbria por sinal, arrefeciam os traseiros contra os paralelos calcários que calcetavam o nobre miradoiro, incomodados pela humidade matinal. A rapariga discorria sobre as suas impressões acerca da Amazónia, que tinha visitado em viagem recente. De facto, um país onde as desigualdades sociais estão à vista por todo o lado - dizia ela. Quando, finalmente, decidimos partir, pediram-nos encarecidamente que não fôssemos - continuava. É inesquecível o brilho de súplica daqueles grandes olhos negros, mergulhados em órbitas ossudas de fome e sofrimento - um dos tipos gemia, flipado. Ela não desistia: é difícil ser atingido um equilíbrio de coexistência entre a floresta e o homem, quando tudo isso é agravado pela pobreza extrema de quem dela depende. Após um breve silêncio, que poderia sugerir uma vaga concordância dos dois ébrios, um deles fala num rompante: Ó filha, dá-me a mortalha....

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